Projetos PANCPOP e PANCultura desenvolvem unidade experimental em São Lourenço do Sul

Projetos PANCPOP e PANCultura desenvolvem unidade experimental em São Lourenço do Sul

Uma unidade experimental de produção de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) está sendo implementada no interior de São Lourenço do Sul, na localidade de Espinilho. O espaço, cedido por parceiros, fica no Sítio Espinilho e sediará ações do 7º Encontro Nacional de Hortaliças Não Convencionais (Hortpanc), considerado o maior evento sobre Plantas Alimentícias Não Convencionais do Brasil, e que acontece de 23 a 25 de abril de 2024 no município.

O 7º Hortpanc é organizado pelos projetos PANCPOP e PANCultura, da FURG São Lourenço do Sul (FURG-SLS), em conjunto com a Incubadora de Empreendimentos de Economia Solidária (Ineesol) da universidade e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) – Unidade Hortaliças. O evento visa ampliar o diálogo sobre a produção das PANC, espécies que têm ganhado cada vez mais espaço no contexto nacional, se mostrando uma alternativa na busca por diversidade alimentar e trazendo impactos positivos à renda de agricultores e agricultoras.

Segundo Jaqueline Durigon, docente da FURG e coordenadora dos projetos PANCPOP e PANCultura, o Hortpanc se caracteriza pelo seu caráter extensionista, que intenta unir quem produz com quem consome, e por ter sempre, em sua programação, um dia de campo. “Nesse dia, algum sistema de cultivo de PANC é visitado para as pessoas conhecerem as espécies e as formas de manejo, em um viés bastante da horticultura agroecológica. Já tínhamos o desejo de fazer um banco comunitário de sementes e mudas PANC no projeto PANCultura, o que agora convergiu com a organização desse evento, então decidimos implantar [a área experimental] na casa de um agricultor e de uma agricultora, utilizando uma metodologia participativa com os agricultores agroecológicos aqui de São Lourenço do Sul”.

Mutirões regulares para a preparação da área estão sendo realizados por estudantes e professores da FURG, pessoas da comunidade e agricultores agroecológicos parceiros. “O nosso intuito é envolver esses sujeitos desde o início do processo, na escolha das espécies, no manejo inicial dos canteiros, até o final do processo, lá em abril, quando o Hortpanc vai se realizar”, explica a professora.

A ideia é que os mutirões continuem a ser realizados semanalmente até abril de 2024. Em conjunto, já foram definidas três diferentes estações no espaço, por suas aptidões ambientais: uma voltada à produção de raízes, uma estação de hortaliças PANC folhosas, e uma estação de hortaliças perenes e frutos PANC. Parte da produção também será colhida, servindo como base para a alimentação que será servida durante o evento aos participantes.

Segundo a professora Jaqueline, a intenção é que o sistema seja mantido a longo prazo. “Tanto para pesquisa, quanto para atividades de visitação, de extensão e de aprendizado. Também é um local onde depois podemos propagar as espécies e distribuir mudas. Um sistema que pode ser replicado em outros lugares, em outras propriedades rurais aqui de São Lourenço do Sul”, diz Jaqueline.

Visita especial

Em um dos mutirões, a equipe recebeu a visita do engenheiro agrônomo Nuno Madeira, pesquisador da Embrapa Hortaliças e um grande especialista na horticultura PANC. Quando esteve no local, Nuno deu orientações aos presentes, auxiliando no manejo das espécies e na construção participativa do sistema experimental, atuando na definição de canteiros e primeiros plantios.

O pesquisador afirma que o dia de campo foi muito significativo. “A dinâmica foi muito bacana, mais ou menos umas vinte pessoas, sendo metade estudantes e professores; e metade produtores, agricultores, agricultoras. Foi muito prático, foi muito alegre, foi uma energia muito boa. Sempre com a decisão compartilhada, que é uma característica do nosso grupo. A gente chega e pergunta: O que vocês acham? O que é melhor? Como é a melhor forma de fazer o preparo de solo? Depois, qual é a melhor divisão entre as espécies? Qual é a distribuição? E aí as tarefas também a gente foi distribuindo de uma forma muito tranquila”, conta.

Segundo ele, a área atendeu plenamente ao que era esperado: um espaço pequeno, capaz de demonstrar que cultivos podem ser feitos por qualquer pessoa, em qualquer lugar, até mesmo em vasos. “A gente vai mostrar dez metros quadrados de uma determinada cultura, que pode ser replicada em uma área de cem metros quadrados, é só questão de mais braços, de mais trabalho”.

Nuno diz que sua visita visou contribuir com um movimento que já existe em torno das PANC na região, promovido pelo projeto PANCPOP e PANCultura. No dia, buscou compartilhar com os presentes conhecimentos acerca da Fitotecnia, ou seja, técnica de estudo de plantas que trabalha para o desenvolvimento e aprimoramento dos sistemas de produção das culturas.

Assim, trouxe informações sobre adubação, espaçamento, condução, cortes, colheitas, periodicidade e plantio, por exemplo. “A gente traz essas propostas de manejo para incrementar ainda mais esse movimento PANCPOP no Sul e espera a presença no evento de agricultores, professores, extensionistas que levam para outros agricultores, multiplicadores, e estudantes acadêmicos”.

Saiba mais sobre o 7º Hortpanc

O 7º Hortpanc acontecerá em 23, 24 e 25 de abril em São Lourenço do Sul. Os dois primeiros dias serão dedicados a palestras, mesas redondas, apresentação de trabalhos e uma reunião técnica sobre Agroecologia, Agricultura Urbana e Economia Solidária, em que serão discutidas políticas estaduais para as PANC. Já no último dia, os participantes se deslocarão ao Sítio Espinilho e poderão visitar a área que está sendo construída.

Entre os palestrantes, já estão confirmadas as presenças de Valdely Knupp, idealizador do conceito PANC; Nuno Madeira, o maior especialista nos sistemas de produção de PANC no Brasil, e Neide Rigo, referência na agricultura urbana do país, incluindo as PANC, e grande especialista na história da alimentação brasileira. Durante o evento, está prevista uma mesa composta por agricultores e agricultoras para falar sobre a inserção das PANC na produção. Paralelamente à programação, também será realizada uma feira de agricultores e agricultoras que comercializam PANC no Rio Grande do Sul.

Jaqueline destaca que essa é a primeira vez que o evento será realizado fora das capitais e fora de uma grande cidade. “Foi um grande desejo nosso aqui de interiorizar o debate das PANC e fazer um processo participativo com grande presença dos agricultores, agricultoras e povos e comunidades tradicionais”, explica. Segundo a docente, pretende-se possibilitar que quem produz esteja participando ativamente das discussões do evento. “O objetivo é que o debate das PANC chegue para os agricultores, que eles participem dos debates, construam também esses debates e possam ir se apropriando das técnicas e manejos dessas espécies. Algumas já são conhecidas por eles, outras ainda não, mas eles têm grande interesse em ter suas propriedades e diversificar sua produção agroecológica”.

Nuno afirma que o sentido do evento é a interação realizada. “Esse evento propõe juntar quem planta com quem come, com quem prepara, com quem cozinha, e sempre com uma carga de carinho, de dedicação, de trazer alimento de qualidade de verdade, e não só cozinhar em quantidade. Então, é esse o evento traz essa proposta de aumentar a produção dentro desses moldes para poder atender essa demanda que já existe muito forte na culinária, gastronomia e nutrição”.

De acordo com o pesquisador, ao contrário de outras iniciativas que buscam apenas sensibilizar sobre o tema, o Hortpanc busca perpetuar a ideia de diversificar a alimentação de uma maneira que seja realmente consistente, com o aumento da produtividade de espécies PANC seguindo práticas agroecológicas. O evento traz como recorte o foco em hortaliças, por considerar que frutas são mais aceitas pela população. “As hortaliças muitas vezes são negligenciadas, então a gente tem um esforço maior. São três fatores importantes que merecem destaque: as hortaliças necessitam de pouco espaço, têm ciclo rápido e uma capacidade de muito rapidamente de transformar a alimentação de uma comunidade, resgatando alimentos que foram parte muitas vezes da nossa cultura”, explica.

Registros dos mutirões agroecológicos e mais informações sobre o evento podem ser acessados no Instagram @hortpanc .

Fonte: Universidade Federal do Rio Grande do Sul